Guignard, Auto-Retrato, 1955

A relação de grandes artistas que se inspiram em Lagoa Santa, como Guignard, Inimá de Paula e Peter A. Brandt, é bem explicada pelo professor e paleontólogo Cástor Cartelle, em um prefácio que ele deixou no livro “O artista desaparecido”, biografia recém lançada no Brasil sobre o Brandt:

Há guaches que retratam a pequena Lagoa Santa. Sua contemplação emociona, pois ressuscitam um tempo passado. Tudo gira em torno da lagoa, em cenas que captam detalhes das casas, caminhos, vegetação e até o centro da vida comunitária de então: a igreja, as ruas poeirentas que se alongam penetrando na ainda densa vegetação e que são beiradas por casas esparsas.”

Depois de Carlos Drummond e Inimá de Paula, mais um modernista que se inspirou nas paisagens de Lagoa Santa para expressar a grandiosidade do Brasil é o pintor e desenhista Alberto da Veiga Guignard (1896-1962).

Nascido no Rio mas mineiro por opção, Guignard tinha uma ligação com as montanhas de Minas, seu céu, seu povo e suas cores. Foi o poeta Manuel Bandeira que o aconselhou: “Vá pra Minas que tem tudo a ver com você.”

Lagoa Santa – 1950

Em 1944 Guinard mudou-se para Minas a convite de Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, para montar uma escola de artes em Belo Horizonte e passar sua visão acadêmica de arte a pintores mineiros em ascensão.

Em 1950, Guignard hospedou-se inúmeras vezes na residência do médico Lucas Machado, irmão da escritora Lúcia Machado de Almeida, em Lagoa Santa. Naquele tempo a cidade ja tinha esse turismo característico nos finais de semana por moradores de Belo Horizonte, predominantemente da classe média, constituída de bancários, funcionários públicos e profissionais liberais que eram atraídos pela lagoa.

O pescador, a lavadeira solitária e o cavalo que pasta a paisagem. Barcos semi-abandonados, uma discreta vegetação aquática. Os cais improvisados e a encosta do morro. O céu mais iluminado que aqueles dos quadros que pintou de Ouro Preto, talvez devido a superfície da lagoa ou a qualidade diferente de luz na cidade. Foi essa paisagem de Lagoa Santa que Guignard pintou várias vezes, com poucos traços e grande economia de recursos, como dizem críticos de arte, mas definindo a situação com um olhar que a população jamais viu.

Nos quadros estamos em uma Lagoa Santa da década de 50, e os “anos dourados”, a passagem do Brasil agrário para o tecnológico, ainda iria demorar para chegar na pacata e bucólica cidade dos fósseis. Ja existia o Parque Aeronáutico PAMA-LS na entrada da cidade, mas o Aeroporto de Confins, o principal responsável pelo crescimento econômico que a cidade vive nos últimos anos, só seria inaugurado em 1984, muitos anos depois. Foi a década também marcada pela devastação dos sítios arqueológicos por atividades agrícolas, e o oba-oba dos artefatos primitivos que eram achados e vendidos em praça pública por mercenários, ao estilo Peter Claussen.

Na paisagem de duas pinturas da galeria acima ainda se ve a antiga Igreja Nossa Senhora da Saúde, principal igreja da cidade construída em 1819, ao estilo barroco, que seria demolida nos anos 60 devido ao péssimo estado de conservação para dar lugar a que existe hoje, com arquitetura arredondada, totalmente diferente.

Não poderia falar de Lagoa Santa e Guignard sem mencionar a artista Leda Selmi Dei Gontijo, uma das alunas da primeira turma da Fundação Escola Guignard, em 1944, estudando com o mestre Guignard, e que mora em Lagoa Santa desde 1983. Pintora, escultora, designer e ceramista, possui diversos prêmios, exposições e obras espalhadas pelo mundo. É também tia do cartunista e escritor (e muitas outras coisas mais) Ziraldo.

As imagens dos quadros desse post foram fotografadas em livros que estão no Museu Guignard, em Ouro Preto, e também do site http://guignard.dcc.ufmg.br/

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